Matacão, Uma Lenda Tropical
Miguel Carqueija

Rio, 19 de setembro de 2006
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MATACÀO, UMA LENDA TROPICAL
de Karen Tei Yamashita
(resenha de Miguel Carqueija)
Editora Zipango (SP), 2003

Título original: Through the arc of the rain forest (c. 1990 da autora)
Tradução de Cristina Maria Teixeira Stevens e Carolina Berard
Capa e projeto gráfico: Pedro Penafiel

 

Segundo a orelha do livro (cuja apresentação gráfica é de primeira) a autora, uma nissei americana nascida em 1951, mudou-se para o Brasil em meados da década de 70 para estudar a imigração japonesa, casou-se com um brasileiro e aqui morou por uns dez anos, retornando então aos Estados Unidos e iniciando uma carreira de romancista.

Este livro é do tipo "realismo fantástico". Nunca fui apreciador de histórias desse tipo, que exploram um "nonsense" à Juarez Machado. Com esta ressalva, devo dizer que a narrativa é um prato cheio para os fãs do gênero: mexendo em temas fascinantes como a ecologia, a situação dos "diferentes" e o poder do dinheiro e da propaganda, apresenta uma gama extraordinária de figurinhas difíceis, cada qual com características exorbitantes e capazes, de certa forma, a mover o mundo.... tudo neste romance é exagerado, a começar pelas conseqüências de algumas ações, como peregrinar descalço ou soltar pombos-correio, ou utilizar penas para operar curas. As idiossincrasias dos personagens vão se tornando moda e coqueluche na sociedade, e a nível inverossímil. O elemento de ficção científica também está presente, com o estranho solo plástico descoberto na Amazônia, o "matacão", em torno do qual gira a trama.

Os personagens principais são muito, mas muito estranhos mesmo. Kazumassa Ishimaru, por exemplo, é um japonês que possui uma bolinha que gravita em torno da sua cabeça, como se fosse um satélite pessoal. A vibração da bola identificava irregularidades na ferrovia onde Kazumassa trabalhava. Depois ele sai do Japãp para o Brasil, onde acaba conhecendo outras figuras notáveis. Uma delas é Chico Paco, jovem cearense que cumpre uma promessa no lugar da avó do amigo cuja vida havia sido salva. Ele peregrina 2400 quilômetros até o Matacão, onde vem a conhecer o já lendário Mané da Costa Pena. Depois que as inundações levaram a sua propriedade e descobriram o solo impermeável do Matacão, ele começou a ser notado, inclusive na tv, pelo seu hábito de acariciar a orelha com uma "pena milagrosa" – e a partir daí mais coisas extraordinárias se acumulam nessa narrativa, onde se pode dizer que tudo acontece...

Tem também o esquisito casal Batista e Tania, da criação de pombos. Forçado a se ausentar de casa por negócios intermináveis que envolviam o Matacão e o assunto dos pombos, Batista permanece longos meses sem conseguir retornar porque a sua esposa Tania, que ficara na retaguarda, sempre inventava mais coisas para fazer e lá ficava ele, separado da companheira e morrendo de saudades e ciúmes. E ainda o norte-americano de três braços (sic), J.B. Tweep, que domina secretamente uma mega-empresa e acaba também vindo parar no Matacão.

Uma verdadeira salada exótica, onde no entanto tudo se conecta com maestria e onde a fábula, a mensagem ecológica e o humorismo se combinam com a sátira e até com a mensagem social e a ficção científica.

Um livro extravagante, que não segue a lógica cartesiana (o que levará muitos leitores a estranhá-lo), mas que merece uma leitura.

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