Contos do Navegador

NA JANELA COM O ESPREITADOR

John Dekowes

Passar o verão em Xuwha-kay-Do é uma experiência e tanto. Ainda mais quando coincide com a correição dos Yagoriütschamprsurayotamñio. Um nome grande e imponente para tão minúscula criatura, que troca de pele arrastando o corpo lustroso nas areias silicosadas da praia, até ficar sanguinolenta, para em seguida, como num desespero de vida, mergulhar no oceano colóide e de aparência azul prateado em K'Haafr-nòin, quando o gigantesco sol esverdeado, pulsando labaredas amareladas como setas, do seu interior, parece derreter como banha rançosa do J'amel, o maior sáurio do planeta, cuja reprodução alarmante, transforma esse ser dócil, na mais perigosa criatura existente e caçado intensivamente. Contudo, a sua proliferação só é contida e equilibrada devido aos "Yagts", que apesar dos 3 milímetros insignificantes, aos bilhões, transformam os quilômetros e quilômetros de extensão da orla marítima, num elemento vivo. Depois partem vorazes, doridos e esfomeados para dentro da massa colóide, devorando os milhares de ovos, girinos e filhotes dos sáurios ainda nos ninhos.

Toda essa transitoriedade faz parte do círculo temporal mágico que transcende a natureza de Xuwha-kay-Do. Esse rito deixa profundas marcas nos habitantes locais. De certa forma, mais do que no restante do planeta, suas vidas estão ligadas aos "Yagts". Não pela sua pequenez ou mudança de pele, mas pela sua selvageria, pela sua resistência, pela sua luta obstinada que travavam contra os inimigos e contra todos pela sobrevivência.

A principio o universo em que viviam não era nada convencional. Eles mesmos adquiriam características mutantes próprias, que rompiam ou iam além da antropometria aceita e evidente dentro da organização social dos dois planetas: Xuwha-kay-Do e Sery-dha. Mundos completamente opostos em tudo, mas que exerciam fortes atrações nos biosistema.

Xuwha-kay-Do por estar mais próximo do sol, recebe determinadas radiações que distorcem a sua atmosfera, perturbando o processo da luz radiante, abundante sobre os objetos e formas. Apesar de um mundo paradisíaco, com florestas tropicais prateadas, fontes fosforescentes, recantos de prazeres incontáveis, montanhas que se elevam como minaretes e terminavam em lâminas agulhadas, das quais os ventos do leste tiravam sons que mais lembravam vozes em coros religiosos; desafiava a todos a conviver num ambiente onde cada detalhe sutil, possuía a sua elevada importância dentro do contexto de vida. As vista comuns tinham uma visão em desajuste de cores, como se as imagens escorregassem para os lados, e as cores se não se casavam, onde as predominâncias dos tons azuis e vermelhos transcendiam os elementos da realidade visual além do espaço. Aqueles que não eram cidadãos de Xuwha-kay-Do precisavam de estereovisão acoplados aos olhos, para verem com precisão e nitidez. Nos habitantes do prevaleciam mutações onde os orifícios oculares eram duas membranas com filtros transparentes em azul e vermelho, que projetavam as imagens do conjunto ao terceiro olho central, logo acima, com a predominância da luz prateada.

*****

T'Varr nasceu em Apidon, cidade satélite, localizada a oeste de Xuwha-kay-Do, Capital. E desde pequeno passara a sofrer discriminação em virtude das sua diferenças físicas. Sua mãe era nativa de Jöh, uma pequena aldeia perdida entre montanhas e despenhadeiros, na região mais inóspita do planeta. Viera ainda pequena para a megalópole Xuwha-kay-Do, num comboio de cargas; mais tarde, tivera uma paixão desenfreada por um terráqueo, que seria levado como prisioneiro, para experimentos científicos em Sery-dha. No tempo em que a nave prisão permanecera por duas semanas fazendo manutenção no planeta, praticamente tivera um relacionamento carregado de emoções. E, durante essa curta e tempestuosa paixão, nem se preocupara com as implicações genéticas, e se acasalara com aquele ser impetuoso, indefeso e romântico. Dessa fusão híbrida, cercada de segredo, cuidados e muita dor, nascera de um processo embrionário blastulado bastante difícil e complicado, onde o organismo da sua mãe tivera que desenvolver e aprimorar meios para a sua evolução orgânica e metabólica. Para amenizar as cólicas e fisgadas que sentia durante a sua gestação, sua mãe ia banhar-se constantemente no oceano coloidal de K'Haafr-nòin, onde ficava completamente dopada. E, certa vez, já quase no final da gravidez, como supunha, a dor era tanta e descontrolada que nem percebera os Yagoriütschamprsurayotamñio. Envolvida por eles e absorvida momentaneamente de toda a sua energia, a aflição que a atormentava cessara, e chegara a perder os sentidos. Ao voltar a si, o corpo parecia em carne viva, depois viu as minúsculas criaturas sumirem para dentro do oceano, deixando a sua pele com a cor verde alaranjada, e com ligeira dormência formigante. Sua mãe custou a entender tudo aquilo que ocorria com ela. Porém ele compreendera muito bem, mais tarde.

A sua constituição física dominante durante o estágio evolutivo se bipolarizara em dois segmentos importantes: genes humanos e "Yagts". A genética terráquea prevalecera em todos os aspectos antropóides, com traços marcantes, e das pequenas criaturas, o mimetismo e absorção orgânica e estésica de tudo ao redor. E durante o seu crescimento, permanecera oculto aos olhares curiosos. A primeira e única vez que aparecera na cidade, causo enorme reboliço. Só a inexistência do terceiro olho já tornava um excluído, um mutante. As cavidades oculares onde se localizavam os filtros haviam desenvolvidos globos oculares, dando-lhe uma visão bifocal mais abrangente do campo visual de longo alcance; e membranas cristalinas retráteis em vermelho e azul equilibravam as cores, porém não escondiam suas novas pupilas quadradas.

Durante todo o tempo em que viveu entre Apidon e K'Haafr-nòin, quando pequeno, sua mãe alimentava-o da suas próprias energias. Depois os "Yagts" passaram a complementar a parca dieta misturada a um caldo grosso, em seguida, quando já estava maior, os sáurios se transformaram na minha principal fonte de proteína, entretanto, nenhuma se equiparava à energia que consumia da sua progenitora: muito mais forte e poderosa. E, à beira da morte por prognose emocional e mental, T'Varr fora envolvido por imagens reveladoras vindas da sua mãe sobre as suas origens. O planeta Terra de onde viera o seu pai, o Sistema Solar, a Via Láctea... uma visão alucinante de seres que se assemelhavam a ele... E tão logo recebera todas as informações, o corpo consumado dela foi posto de lado. O que restara era apenas lixo em decomposição.

T'Varr não tinha nenhuma ligação com ninguém em Xuwha-kay-Do. Muito pelo contrário, quanto mais longe fosse dali, melhor seria a sua vida. O primeiro pensamento que rompeu na sua mente foi Sery-dha.Lá, talvez encontrasse alguma referência sobre o ser humano, seu pai. Não se conhecia ainda profundamente, porém sabia que possuía um poder íntimo muito grande, precisava descobri-lo e, devia tomar muito cuidado para não se machucar. Mas como chegar até Sery-dha? Não tinha nenhum drrossel e seria muito difícil conseguir algum rryahd para viajar. Mesmo assim já havia tomado uma decisão; partiria de qualquer maneira para o planeta Terra, nem que fosse a última coisa em sua vida. Sery-dha estava descartada. Mas como ir para lá? Nem ele mesmo sabia como e muito menos sabia onde ficava. O máximo de longe que já havia chegado fora até os limites fronteiriços de Apidon e às barreiras colóides de Xuwha-kay-Do. Isso não era muito, qualquer nave a 500 quilômetros de altitude, vislumbrava muito mais. Arranjou trabalho nas Docas, como vigia da Terceira-Hora. Ninguém gostava de fazer esse turno. Era um período bastante perigoso, pois havia muitos roubos, assaltos e os dargons despertavam esfomeados e violentos; para acalmá-los, o vigia precisava alimentá-los antes de deixá-los à solta pelos galpões onde se encontravam os navios mercantes espaciais e outras pequenas embarcações marítimas. Um dargon esfomeado era difícil de conter, pois passado o seu tempo de jejuno, saía devorando tudo o que encontrasse pela frente, e cada um tinha o seu coxo, e a serralha devia ser colocada no tempo certo para todos os cento e cinqüenta animais. T'Varr achava isso de somenas importância. O regulador emitia um alarme sonoro cinco minutos antes dos dargons despertarem, e acionavam automaticamente os silos alimentadores. O que precisava fazer era só conferir se todos estavam abertos, e após a conferência, ligar os monitores aos sensores e alames de segurança. Somente na Terceira-Hora é que haviam tais procedimentos. Não exigiram nada dele para pegar o trabalho, talvez também pelo seu aspecto esquisito e ameaçador. Mas para não causar nenhuma desconfiança usava uma máscara adaptada a um estereovisão que lhe cobria parcialmente o rosto, por debaixo do uniforme de vigia, tinha um macacão de fibra sintética alumínica, que revestia todo o seu corpo, neutralizando temporariamente, o seu poder de estésia.

Nas primeiras semanas tudo correu satisfatoriamente muito bem. Os flutuadores carregados de turistas chegavam e partiam aos montes, e outros estavam atrasados, acumulando as docas. Os navios mercantes eram enchidos de produtos e já se preparavam para partirem. Tudo parecia calmo, entretanto, as coisas principiaram a ficar estranhas quando alguns dargons apareceram mortos. Para um animal que comia de tudo, sem exceção, desde parafusos, pedaços de latas, fios e tudo o mais, e depois expeliam uma massa gosmenta que era vendida, como adubo, por um preço absurdo em Apidon, ter como causa mortis: envenenamento por intoxicação alimentar! Era coisa muito séria. Ainda mais que encontraram fibrose de estanho e pigmentos de acidulina ferruginoso em grande quantidade nas entranhas dos cadáveres. O metabolismo dos animais não havia conseguido digerir os derivados principais, em consequência da falta de base protéica. Como se essa energia tivesse sido sugada, causando assim, um tremendo estrago às pobres criaturas. Era para ficar preocupado. Certa noite, quando já havia soado o alarme sonoro, os investigadores da Companhia de Seguros surgiram de repente. Vinham pelo interior do pátio, e nem perceberam quando as feras atacaram repentinamente. Tentaram sacar suas armas, mas os animais esfomeados e com instintos assassinos agiram muito mais rápidos. O que sobrou foram restos de peles e manchas de sangue por todos os lados. T´Varr não pode evitar essa carneficina, nem se arriscaria em sair de onde estava. Era norma. Apenas alertou a segurança externa das Docas a respeito imprudência dos ditos policiais e enviou relatório habitual com as imagens gravadas para o Sistema Correcional da Empresa onde trabalhava. Não comprendia como foram tão idiotas em virem calmamentes pelo pátio interno, quando deveriam percorrer toda a extensão da Doca pela bandeja atravessadora. Não poderiam desconhecer os avisos de alertas em grandes placas luminosas, nem os sensores de perigo automáticos! Na verdade, sobrepujaram a tudo e jogaram fora suas vidas, sem nenhuma necessidade. Não entendia como criaturas inteligentes e treinadas foram tão descuidadas? Mas a confusão já estava formada, e todo o local foi cercado e proibido ao tráfego, ao embarque e desembarque. Somente a nave prisão que chegara sem aviso, conseguira estacionar. T'Varr percebia algo de muito estranho pairando no ar. Seu instinto lhe alertava, todavia não sabia explicar bem o que era. O ambiente ao redor estava bastante carregado e nervoso.

Mas como estava no contrato:a cada um terço de hora da Terceira-Hora, deveria fazer a ronda do seu turno na bandeja atravessadora, que cobria toda a área interna da Doca. A poucos metros do solo, e de onde se encontrava, dava para ouvir o barulho musical junto com vozes alteradas, vindas do setor residencial, a pouca distância. Chegara até por alguns instantes seguir o ritmo do embalo, quando uma magnífica explosão estremeceu tudo ao redor, seguido de um clarão repentino, cegante e intenso que pareceu vir do local onde estava a nave prisão. T'Varr voltou-se no exato momento em que uma bolha vítrea azulada e viva avançava na sua direção. E sentiu quando o vento quente e carregado de estilhaços o pegou de surprêsa, arremessando violentamente o seu corpo, como um projétil, contra a jaula suspensa dos dargons, que partiu-se em duas. A bolha, como que distendendo um braço ameboso, engoliu-o enquanto ia rompendo as barreiras a sua frente, até jogá-lo dentro do mar, fazendo o seu corpo sumir na massa coloidal, crepitante de luzes coloridas e restos de entulhos.

*****

O inferno parecia ter aberto suas portas siderais, pois o espaço convulsionava como uma estrela num parto doloroso, até que numa velocidade diabólica expeliu das suas entranhas aquela estranha massa de luz, que foi em em direção ao planeta negro mais adiante. E como um relâmpago rasgando o firmamento, a bola de fogo rasgou o horizonte e foi diminuindo de intensidade, até desaparecer por completo, quando chegou ao solo. O som de vidros estilhaçados aos montes e depois pisoteados rompeu com o silêncio noturno. A claridade do luar iluminou de relance uma figura com trajes em frangalhos, com respiração áspera e ruidosa, entrecortada de sons borbulhantes. T'Varr experimentava um tipo de atmosfera agressiva para a sua vida, mas ao mesmo tempo, vital para a sua sobrevivência. Onde estava? Seus olhos aos poucos se acostumavam com aquele tipo de iluminação, e ele observava ao redor. Desconhecia aquele tipo de construção. Que estranho céu era aquele... Onde estava a estrela Bkel, que não conseguia localizar à leste? Escutou sons desconhecidos aproximando-se. A primeira reação foi aprofundar-se nas trevas, mas ficou estupefato quando viu seres idênticos a ele! Com esforço retrocedeu para o beco, rapidamente, mas ao encostar-se contra a parede, uma coisa terrível aconteceu-lhe. Foi engolido por ela, literalmente! Sentiu quando sua massa de energia foi absorvida dolorosamente. Assustou-se, reagindo imediatamente dando um salto para a frente, e no momento exato em que passava um grupo de pessoas. Entretanto, novamente foi surpreendido por algo inesperado. Ao invés de se chocar contra elas, seu corpo volumoso passou através delas, indo esborrachar-se no chão, mais adiante. Apavoradas as pessoas correram todas em meio aos gritos. Contudo, T'Varr ficou caído no solo, em completo estado catatônito, tendo estremecimentos repentinos, como se tivesse levado potentes choques elétricos, ao mesmo tempo em que um surto de imagens distorcidas de seres fantasmagóricos surgiam em flashes dentro da sua mente. Na medida em que as impressões mentais escasseavam, o barulho de vozes aumentava externamente. Voltava à realidade. A sua volta, reuniam-se muitos curiosos que observavam a estranha posição em que se encontrava: com a metade do tronco enterrado no solo. A pouca iluminação deixava os curiosos mais a vontade na tentativa de ajudá-lo, todavia, nos poucos instantes em que ousaram auxiliá-lo a sair do suposto buraco, ele viu-se envolvido em emoções profundas, sentimentos desconexos e confusos de amor, ódio, angústia, medo... Sensações tumultuadas e desconhecidas. E, em determinado momento daquela loucura visionária - antes de pôr-se em fuga, atravessando através da multidão que se formava ao redor -, seu corpo se deslocou para o corpo de uma das criaturas que segurava a sua mão, e percebeu-se olhando para si mesmo!

Durante algum tempo T'Varr observou, a distância, os seres humanos, escondido em um prédio abandonado. O seu primeiro contato não fora uma experiência muito agradável. Não sabia como, mas assimilava o idioma que falavam e descobrira que aquele mundo dava-lhe infinitas oportunidades, porém encerrava uma dimensão muito pobre: altura, largura e profundidade, que dificultavam os limites da sua essência, criando barreira fenomenológicas que afetavam o seu metabolismo face as deficiências daquele plano dimensional. A duras penas, ia descobrindo as diferenças significativas ocorridas no seu corpo. Se em Xuwha-kay-Do, apesar das suas transformações congênitas, conseguia suportar tudo, naquele planeta, outras mudanças havia acontecido, mas não eram desesperadoras, apenas deveria buscar soluções não conflitantes: ter ou não ter corpo!? Se tivesse que viver naquele mundo com o seu corpo presente, se converteria numa espécie de receptor extrasensorial de energias; ver-se-ia subjugado pelas constantes desestabilidades psicossomáticas dos seres humanos e condenado a um receptáculo atávico de emoções, pesadelos, lembranças...Agora, sem o seu corpo, estando livre, poderia ver através dos olhos humanos, espreitaria por todo o mundo sem maiores problemas. Como receptor conseguia suportar a energia vinda dos seres humanos, entretanto, o mesmo não acontecia com eles, que não agüentavam por muito tempo o seu fluído eletromagnético e morriam. Mas o que importava? Existiam bilhões de criaturas à sua disposição: vegetal, mineral ou animal. E progrediam num ritmo alucinante. Proliferavam de modo alarmante como o sáurio J´amel. T´Varr por breves segundos percebeu que naquele planeta alcançaria a sublimação existencial, pois transcendia as dimensões atômicas daquele sistema de vida, numa fusão cósmica que ia além da própria existência.

Um dia, sem nenhuma razão aparente, foi atraído por uma força desconhecida para o meio da selva tropical, e descobriu construções cujo feitio piramidal indicavam não ser humana. Desconhecia as inscrições e a origem. Não havia nada que pudesse dar uma indicação, apenas pedras cobertas de musgo e um buraco escuro na base, que se aprofundava para o interior. Deixou-se levar instintivamente até o fundo, onde haviam galerias de simetrial axial, tendo ao centro um imenso hall afunilado, com iluminação vinda através de cristais de quartzo ramificados por cada entrada, contudo, um único fio de luz violeta vinha do cume, aspergindo a claridade para os espelhos ao redor, pois em determinado ponto, o feixe luminoso se decompunha. Mais adiante um outro salão despertou a sua atenção; as paredes cobertas com placas vitrificadas - lembravam a bolha antes da explosão -, protegida por uma porta semitransparente. Não se incomodou em descobrir como abrir, simplesmente atravessou-a, e no mesmo instante, uma luz esverdeada dominou todo o ambiente, enquanto erguia no centro do recinto, silenciosamente, um bloco marmóreo retangular azul escuro. Algum sensor acusara a sua presença. Depois de analisar o local por certo tempo, pareceu-lhe ser seguro para o que se propunha. Tinha uma leve sensação de que tudo fora previamente preparado para a si. Não sabia como nem porquê, mas sem muita demora, deitou-se sobre a lousa elevada, e imediatamente a luz ambiente tornou-se alaranjada, e uma redoma translúcida e irradiante cobriu-o. Ficou aguardando alguma surpresa preparando-se para escapulir daqui, mas nada aconteceu.

Pensava. Voltar a civilização era algo muito rápido. Uma coisa que esquecera de observar, mas que sabia ser importante: o seu lado humano ficava praticamente adormecido ali, junto ao corpo. Não suportaria por muito tempo viver naquele planeta dentro daquela matéria. Ficando guardado naquele local, estaria protegido. No estado que escolhera viver dali em diante, já sentia a influência dos Yagoriütschamprsurayotamñio e uma voracidade desmedida que precisava aplacar.

 

T'Varr considerava que aqueles humanos em idades avançadas não levantariam suspeitas inicialmente, e seriam mais fáceis para espreitar. Possuíam doenças da idade que fatalmente os levariam à morte. Por dois ou três meses terrestres poderia se ocultar em seus corpos, e com pleno domínio. Primeiro foram os mendigos, os que viviam nas ruas e nos becos, mas eram criaturas enfraquecidas, desnutridas que não resistiam por muito tempo e morriam de forma terrível. Antes que o corpo entrasse em decomposição ia para outro, e assim por um longo período se acomodou entre os miseráveis das regiões metropolitanas. Não havia nenhuma importância ser este ou aquele corpo, nem o seu estado sexual. Das poucas vezes em que espreitou pelo planeta numa fêmea jovem, notou diferenças de energia interna, inclusive que dentro do corpo dela era habitado por outra criatura pequena, que com o tempo, foi sendo absorvida pelo organismo que necessitava de substâncias protéicas e depois os restos foram expelidos. Os mais jovens não tinham nenhuma resistência a mais do que os adultos ou mais velhos. T'Varr procurava despistar ao máximo a sua passagem pelos corpos. Nas zonas com maior concentração populacional, às vezes fartava-se durante os assaltos e crimes. A sua experiência mais interessante era quando acontecia a morte do corpo onde se encontrava. Ele não se considerava um fantasma ou coisa etérea;uma sombra que simplesmente ocupava um espaço, era muito mais do que isso! A sua essência extraterrestre projetava radiações ionizantes mortais aos humanos, e ao expô-lo a essa situação, enquanto espreitava a natureza do planeta, suas células e os órgãos internos sofriam seríssimas conseqüências, levando-os à morte com a quebra dos elementos dos tecidos vivos.

Uma das raras vezes em que deixou-se levar por um ser humano, por estar absorto na sua sina de espreitar outros humanos no cotidiano, não percebeu que o seu "corpo" morrera; a matéria se decompunha. Começou a notar algo diferente quando as imagens se tornaram acinzentadas e contrastadas, e a temperatura do corpo ficou gélida, mas instantes mais tarde, houve uma elevação térmica fantástica e os organismos iniciaram um processo de desintegração com a explosão das vísceras, a massa amorfa verde-cinza e viscosa que se transformara o cérebro. Nesse interim T'Varr apenas observava de fora, espreitando de outro corpo mais juvenil a transformação daquele ser na pasta viscida e pestilenta. No final, restara a luminosa radiação esverdeada, que se espalhava ao sabor da mais suave brisa. Ficou apavorado com o que viu.Nunca poderia se acostumar com aquelas visões. A imagem da morte ainda não havia se afigurado com tanta riqueza de detalhes como vira. Lamentava tudo aquilo, mas não tinha como evitar a destruição humana se quisesse continuar vivendo naquele planeta. Talvez outros seres intergalácticos que estiveram naquele mundo, perceberam essa mesma condição e partiram. Só que para ele era muito diferente, não havia outra alternativa, não podia fugir, ir embora. Mas também não podia reclamar da sorte. Quando despertava voracidade instintiva dos Yagoriütschamprsurayotamñio, mergulhava alucinado num oceano de corpos, louco para terminar com aquela sensação, aquele frenesi fustigante. Nesses períodos ficava mais excitado e completamente descontrolado, a ponto de ao espreitar, ver tudo como se estivesse em Xuwha-kay-Do, e não possuía nenhum estereovisão, e isso já se tornara constante. Enquanto que o fenômeno da correição ocorria de ano em ano em K'Haafr-nòin, na Terra a tendência era de mês em mês e começavam a atravessar os dias da semana. Começava a não sentir mais prazer em fazer o que gostava, espreitar a natureza terráquea como vinha apreciando. Mas também considerava as mortes como um acidente de percurso, e num universo problemático como aquele, fazia um bem a todos a sua presença.

Aquelas mortes estranhas não passavam despercebidas, e despertavam suspeitas entre as autoridades médicas. Nos corpos encontrados, após autópsias, constataram excessivas dosagens de radiação ionizantes. Só que não havia sintomas aparentes como hemorragias da pele, vestígios de queimaduras, nenhuma degeneração dos órgãos externos; ao contrário dos órgãos internos que se transformara em verdadeira massa sanguinolenta e putrefata, como se os corpos estivessem a meses indo se deteriorando. O macabro era que a carne, por algum motivo, permanecera intacta. Um fenômeno muito estranho, como aqueles corpos tivessem sido expostos algum tipo de radiação incomum: de dentro para fora! Alguma espécie de produto ou líquido ingerido que continha forte dose de radiação ocasionara aquelas mortes. As investigações não chegaram a nenhum resultado positivo e conclusivo. A maioria das vítimas eram indigentes, mendigos, pessoas que viviam solitárias. Os exames das vísceras não confirmaram o tipo de alimento que fora consumido, pois a radiação já havia transformado todos os organismos em massa pegajosa e bolorenta. Os médicos foram unânimes ao relatarem os fatos:

"... origem radioativa (...) as vítimas engoliram produtos contendo alta porcentagem de isótopos radioativos ou foram expostas a radiações ionizantes (raios alpha, beta, gamma). Obs: os corpos continham 15 rontgens. Nota: Dosagem máxima determinada pela Comissão Internacional de Proteção Radiológica: 0,3 rontgens por semana.

Ainda nos laudos periciais, estava sublinhado que nenhum corpo humano viveria por mais de 24 horas ininterrupta com a dosagem de 15 rontgens, sendo que a maioria das vítimas, possivelmente morreram em menos de 8 horas..."

Não havia um padrão para as mortes, assim como não podiam expedir um alarme em caso de se encontrar alguém suspeito. Laboratórios, Centros de Raio X, Clínicas e Hospitais foram investigados na esperança de se achar alguma indicação de vazamento de material radioativo, que ao menos justificasse aquelas mortes. As comissões médicas e científicas não encontraram nada; e não sabiam explicar ao público sobre as novas vítimas que continuavam surgindo. Não eram duas ou três, mas dezenas. Se existissem referências, indícios físicos resultantes de uma dose de irradiação, como irritação na pele, como as causadas por uma queimadura ou manchas amarelo-esbranquiçadas... Uma série de sintomas clínicos permanentes e evidentes que não transpareciam nos corpos encontrados.

Finalmente, os cientistas, médicos radiologistas e especialistas em radiação ionizantes chegaram a um consenso: que algo desconhecido invadia os corpos humanos, e o único órgão que permanecia intacto eram os olhos. Como se aquilo prescindisse para espreitar, como uma janela, até o instante final, antes de abandonar o corpo deteriorado.

A notícia se espalhou como uma bomba de efeito destrutivo em alta escala. Uma obsessão macabra tomou conta da população. Preferiam ser cegos do que servirem de janelas para alguma coisa que ninguém sabia o que era;e cegas, seriam poupadas, e como de fato, sairam ilesas das dores atrozes que alguns sentiam, pois morriam quase que imediatamente, completamente ressequidas. Só pele e osso restavam. Como se aquela coisa, não podendo usufruir da visão, se vingasse de forma violenta e cruel. Uma onda de terror e desespero invadiu o mundo. Aqueles que haviam se determinado a não mutilação visual, se tornaram desconfiados até da própria sombra. Olhar para o próximo significava quase morte imediata, pois o medo do outro estar possuído pela "coisa malígna" era suficiente justificativa para matar com frieza, até os seus entes queridos. Salvar a própria vida era muito mais importante! As pessoas ficaram mais arredias, agressivas e assassinas...

No auge da tragédia, quando o mundo inteiro se encontrava envolvido na mais eminente catástrofe pessoal, as mortes pararam de acontecer inexplicavelmente. Uma expectativa de que o pior agora estava por vir, deixava a população de sobreaviso. Uma sensação incômoda de espera e ansiedade era muito pior do que as conseqüências funestas... Como se a "coisa" a "entidade do mal"ou seja lá o que fosse, desse uma trégua ou estivesse recuperando o fôlego ou apenas aguardando... Para um ataque com mais impetuosidade, com mais fúria e celeridade exterminadora. Não havia como saber quando o ataque iria ocorrer. Encontravam-se à mercê de uma força mortifica, assassina e impiedosa. E passaram-se meses à fio naquele martírio. Cada um receoso de olhar nos olhos um dos outros, de estabelecerem relacionamentos mais profundos ou se reunirem em grupos, como faziam antigamente nas festas, pois temiam estar sendo espreitados por olhos mortais... através de um corpo conhecido já morto.

T'Varr não suportava mais aquela situação de ter que ficar pulando de corpo em corpo. Os humanos eram seus irmãos e deviam acolhe-lo como tal. Mas não acontecia como deveria ser. Não resistiam a nenhuma das suas invasões, e precisava de algum humano que agüentasse uma carga muito grande de radiação interna, e cujo corpo mutasse e não se destruísse rapidamente. Por outro lado, acreditava que seus "irmãos" procuravam ajudá-lo da maneira que podiam, então, porquê ficar se desgastando em conflitos existenciais se tinha corpos à disposição?

Assim como o J'amel, assim com os humanos: AOS MILHÕES!

E se de repente o seu destino fosse estar ali mesmo, naquele planeta, com finalidade de controlar a super população daquela raça que proliferava de maneira absurda, e sem nenhuma condição de subsistência? Se a sua mãe para fazê-lo nascer tivera que desenvolver, aprimorar meios para a sua evolução orgânica e metabólica, se sacrificando por isso, também iria, com certeza, de alguma forma, encontrar maneiras menos destrutivas para os humanos, de poder espreitar através dos seus corpos, prolongando mais a suas vidas. Por enquanto não pensava em voltar para o seu corpo, aquela construção no meio da selva era o local ideal para deixá-lo em repouso. Havia ainda um mistério instigante nos terráqueos que precisava investigar. Um grande desafio! Os humanos que se cuidassem...

NOTA DO NAVEGADOR: Guerra, epidemias, vírus e outras moléstias mortais desenvolvidas pelos humanos grassam pelo planeta Terra, e matam muito mais do que as incursões de T'Vaar. Ele não é um ser hostil. A sua caracteristica é que o faz como é, mas gostaria de manter contato com seus irmãos humanos, e espera ansiosamente que aconteça logo, contudo, para isso, busca um corpo forte, viril e bastante saudável, que esteja disposto em aceitá-lo por conta e risco.

Leia também: ESTHER E ARTHUR –. O PLANETA DE CRISTAL e O JUÍZO FINAL, através do site: www.ieditora.com.br.

 

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© John Dekowes  2002-2003.


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